As vezes pra acordar precisamos levar um susto. Durante meses esperei novembro chegar. Em novembro estaria junto com o amor da minha vida. No dia do embarque, tentei incessantemente ligar para dividir minha ansiedade, mas não fui atendida. Em função disto não embarquei. Quando foi mais ou menos meia hora depois da hora que deveria ter embarcado, um toque no meu celular. Retornei e disse que não havia embarcado, pois fiquei insegura, literalmente ouvi palavras enfurecidas do outro lado da linha. O que fazer agora. Eu estava apaixonada e queria muito conhecer aquele homem. Não dormi a noite toda, na manhã seguinte fui a rodoviária e comprei outra passagem.
Tudo parecia dentro do programado novamente, mas durante a viagem, em uma determinada cidade onde o ônibus parou para fazermos um café, o ônibus foi embora sem mim. Isto deveria ter sido o suficiente para eu abandonar a idéia, mas outro ônibus da mesma empresa me levou a encontrar o ônibus com minhas malas. Na estação rodoviária de São Paulo fiquei surpresa pois a quantidade de pedintes e pessoas que dormiam no chão era quase insignificante.
Na etapa seguinte, no ônibus de São Paulo para minha cidade destino, a poltrona ao meu lado ficou vazia, entretanto um pouco mais a frente uma jovem com uma criança aparentemente de 3 a 4 anos se espremia num assento. Convidei a jovem a trocar de lugar comigo, pois assim ficaria mais a vontade em duas poltronas. Sentei ao lado de uma senhora mulata. No início, como eu estava com muito sono pois passara quase duas noites sem dormir, cochilei por algum tempo. Depois iniciei agradável conversa com aquela mulata simpática cuja o nome era Míriam. Contou-me sua história de vida, suas frustrações e sucessos, contou-me dos seus casos e paixões. Fiquei com vergonha e falei-lhe que estava indo visitar uma amiga. Miriam me passou seu telefone e fez eu prometer que ligaria pra ela e que nos dias que ficasse na cidade iria visitá-la. Quando ela desembarcou me disse que faltava bem pouco pra chegar a rodoviária, esperei um pouco e liguei para o meu amor.
Como era esperado, ele já estava na rodoviária, e assim que desliguei, rapidamente cheguei na rodoviária. Desci do ônibus com intuito de pegar minhas malas e ligar novamente. De repente aquele homem com qual tanto sonhei pagava na minha mão. Numa fração de segundos achei que passaria mal, tremi nas pernas, pura adrenalina. Mas logo passou.
Pegamos as malas e fomos passear. Eu ainda estava meio que dopada pelo afrodisíaco do amor. Hoje me recordando, demos um giro no shoping mas foi muito rápido. Depois fomos ao Zoo, lembro-me que estava mal, uma gripe terrível. Passeamos no zoo mas também tudo muito rápido. Aquele homem lindo parecia inquieto e eu me questionava: será que sou eu que o deixo assim ou seria seu jeito assim mesmo. Havíamos combinado um código para dizer se tínhamos gostado um do outro. Bom, da minha parte havia sido positivo e da parte dele eu não conseguia bem ter certeza em função desta inquietude. Já estava de tardezinha e fomos para um lugar um pouco mais calmo e reservado. Conversamos, ensaiamos até alguns passos de dança, enfim, ficamos íntimos e a vontade. Foi maravilhoso!!! Ainda assim sentia uma inquietude.
Logo depois o que era pra ser uma noite maravilhosa, transformou-se num pesadelo pra mim. Fui deixada em um hotel, sozinha. Mais uma noite em claro, pois a gripe estava tão forte que durante a madrugada pensei em procurar um médico. Aliado a tristeza de não dormir com o homem que eu tanto amava a gripe estava me matando.
Quando foi quase dez horas do dia seguinte, ele apareceu novamente, todo cheiroso, lindo. Toda minha mágoa e gripe se dissiparam. Entrei em êxtase novamente, dopada pela droga do amor. Toda alegria de vê-lo logo transformou-se em tristeza novamente, pois neste momento fui entender sua inquietação, no qual não entrarei em detalhes, mas que hoje sabendo da história obviamente vejo como eu fui infantil. Depois de saber os motivos, comprei minha passagem de volta. Fui conhecer parte da família. A mãe dele uma senhorinha magrinha com sérios problemas de saúde, serviu-me um café maravilhoso. Ninguém ficará sem se encantar por esta mulher. Um coração que dispensa qualquer comentário. A filha, que achei que nem me cumprimentaria, foi educada e tive a sensação de poderíamos ser amigas e não demoraria para isto acontecer. Ao me despedir a senhorinha sua mãe deu-me um rosário cor de rosa, com o qual rezo todos os dias para que Deus a poupe de sofrimentos e se da vontade dele for, que ela tenha uma breve recuperação. Ainda restavam algumas horas para o meu embarque, eu, embriagada pelo amor, não conseguia ter sequer reação de protesto por já estar indo embora. Óbvio quando a gente ama, ficamos assim mesmo, bobos, diria até tolos.
Embarquei com a promessa de que dia dez de novembro ele viria me visitar. Assim por um lado estava triste mas por outro animada. No dia seguinte estava em casa, com fortes dores pois a gripe e talvez algum mal jeito me impediam de respirar naturalmente. Mas até aqui continuava amando incondicionalmente. Comecei a fazer planos efetivamente mais concretos. Passei a pesquisar cursos superiores de qualidade a distância. Ratifiquei minha mudança para a casa da praia para minha família entre outros. Estava no auge da plenitude. Estava feliz, me sentia amada.
A queda aconteceu dia sete de novembro, quando vi escrito: “To com saudade de você”. Deveria ser uma frase natural, pois eu estava com muita saudade e seria natural que aquele homem estivesse com saudades também. Mas aquela frase não era pra mim. Aquela saudade não era de mim, aquilo estava endereçado a outra mulher. Aiaiai, que dor mais doida, que aperto no coração. Por horas chorei, senti pena de mim, senti-me coitadinha. Na linguagem popular eu estava sendo corna.... senti-me feia, burra, tudo de ruim. Queria entender, queria aceitar, queria ignorar, enfim queria esquecer. Queria ter podido compartilhar este momento com alguém, mas senti tanta vergonha da minha ingenuidade e porque não da minha hipocrisia, que guardei a mágoa só pra mim.
Lembrei-me que havia no início do ano decidido ser feliz e deveria sair do meu egocentrismo e entender que não podemos exigir que alguém nos ame. Alem disto estava diante de um desafio muito maior de que um amor não correspondido. Estava diante do desafio de lutar pela vida. Dia dez de Novembro que era pra ser o dia que o amor da minha vida viria conhecer minha família, meus amigos, minha casa, coincidiu com minha consulta na capital com um especialista em linfomas e transplantes. O que era pra ser um dia feliz, não foi assim tão feliz, pois ainda estava buscando forças pra abrandar a dor no meu coração e o médico reiterou o que eu não queria escutar. Assim eram as coisas, eu não podia fazer nada pra mudar.
Lembrei novamente que decidira ser feliz. Fui pra praia, caminhei, mas nada tirava minha mágoa. Mais uma semana passara, fui dançar. Fazia quase um ano que não dançava, fui paquerada, isto me ajudou a levantar um pouco minha auto estima. Não podia ficar em casa e demonstrar minha tristeza, fui pra Balneário Camburiú. Gente bonita, homens atraentes, charmosos e cheirosos, mas não, ainda estou tão frustrada e com tanta dor que até o celular havia desligado.
Minha dor não havia terminado ainda. Quando li: “Não vejo a hora de chegar dia 31 de dezembro estarmos frente a frente e saciarmos nossa sede amor...” minha nossa! Frases aparentemente inofensivas podem fazer-nos sofrer tanto. E mais, “Mandei um SMS pra vc, mande um pra mim...” Até telefones haviam trocado. Por mais que tentasse me controlar, chorei e os soluços acordaram meu filho que nada entendia. Mais uma vez tive que mentir. Disse-lhe que estava só estava triste e que não tinha explicação. Ele me abraçou e sem nada dizer percebi sua agonia. Senti-me um lixo, um nada, pra não dizer uma merda.
Durante dias fiquei me torturando, tentando entender porque aquele homem lindo não me amou como eu o amei. Tentei achar explicações e ver onde havia errado. Tentei abrandar relembrando o quanto havia sido feliz em poder amar aquele homem, quantos sonhos, quantos momentos bons. Mas nada, nada fazia diminuir minha indignação. Agora depois de escrever estas linhas parece que estou mais leve, pude transferir esta mágoa um pouco. Mas eu prometi pra mim mesma que sereia feliz, e serei. Tenho tão somente que me convencer que nas coisas do coração não mandamos, ninguém é de ninguém, e que eu amei, o importante é isso. Amei incondicionalmente. Estar triste por ter amado e não ser correspondida é menos triste do que não amar. Hoje é dia dezoito de novembro e procuro anticépticos e cicatrizantes para minhas, tão somente minhas frustrações. Já recuperei a auto-estima e obviamente não sou mulher pra ficar mendigando amor. Mas quando isto tudo passar há de uma nova mulher nascer, muito menos ingênua, nunca descrente do amor, sempre disposta a recomeçar e ser feliz.....